domingo, outubro 15, 2006

Nesta terra não há nada que resista I

Há pouco mais de um ano foi inaugurado o Parque de merendas que fica situado junto à fonte como quem vem do norte, como diz a canção. Passado este tempo, vamos ver em que estado está:


Esta torneira foi reparada a semana passada pois a parte onde se pega para abrir e fechar tinha sido tirada.


Não passou por nenhuma cabecinha pensadoira que as raízes da palmeira fossem suficientemente fortes para rebentar com as paredes. Uma despesa inútil.



Os fogareiros foram todos espatifados. Não houve nem um que escapasse à sanha destruidora.




Mais uma torneira inutilizada. Esta é a da fonte.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Por um outro 5 de Outubro



863 de Independência Nacional. Tudo começou a 5 de Outubro... de 1143.

Embora na prática Portugal fosse um país independente desde pelo menos 1139 data em que o Conde D. Afonso, futuro primeiro Rei de Portugal, inflige pesada derrota aos mouros na mítica batalha de Ourique onde, de acordo com a tradição terá ocorrido o célebre milagre de Ourique em que Cristo terá aparecido na cruz a D. Afonso. Foi a partir deste evento que D. Afonso Henriques passa a intitular-se Portugalensium (ou Portugalensis?) Rex. O passo decisivo rumo à independência de Portugal dá-se em 1140 quando D. Afonso Henriques vence Afonso VII de Leão e Castela (Reino do qual fazia parte o Condado Portucalense embora este fosse detentor de grande autonomia) no Recontro de Arcos de Valdevez.
A paz é então assinada na cidade de Zamora naquilo que passaria à História como a Conferência de Zamora que decorreu a 4 e 5 de Outubro de 1143 na presença do legado apostólico, cardeal Guido de Vico - representante do Papa Celestino II, ao qual coube o papel de mediador - de D. Afonso Henriques e de Afonso VII. No documento assinado, o qual ficaria para a posteridade como o Tratado de Zamora, Afonso VII rconhece a independência do Reino de Portugal e D. Afonso Henriques como Rei embora tenha imposto uma condição menor para não perder totalmente a face e ter uma saida honrosa. Propôs Afonso VII como condição que a título de feudo D. Afonso Henriques aceitasse o distrito de Astorga, que este lhe concedia. Isto implicaria na prática que D. Afonso Henriques ficaria a ser simultâneamente Rei de Portugal e vassalo de Afonso VII. Face ao que estava em jogo, o nosso primeiro Rei não deitou tudo a perder por causa de uma questão menor cedendo à exigência do Rei de Leão e Castela pois maior cedência tinha sido feita pela outra parte.
Em qualquer negociação é preciso haver cedências de parte a parte para não haver o risco de bloqueio e impasse nas negociações ou para não haver o risco de pura e siplesmente uma das partes abandonar a mesa das negociações. Como grande estadista e estratega militar que era, D. Afonso Henriques percebeu isso. O intervalo de tempo que vai desde a vitória militar de Arcos de Valdevez à Conferência de Zamora é de 3 anos de tal modo que é natural que não logo após a refrega mas algum tempo depois tenham decorrido movimentações diplomáticas e negociações de bastidores de tal forma que quando todas as partes se apresentaram em Zamora já o tratado estava mais ou menos alinhavado. Sempre foi assim...
Porém D. Afonso Henriques nunca se conformou com esta situação. A prova de que a sua cedência foi apenas um recuo estratégico, um passo atrás para dar dois em frente é de que passados apenas dois escassos meses desde a assinatura do Tratado de Zamora (13-12-1143) resolve fazer a próxima jogada, enviando à Sé Apostólica a carta Clovis Regni na qual jura vassalagem apenas ao Papa e oferece a terra portuguesa em troca da protecção da Santa Sé.
Isto é pura especulação mas provavelmente tanto Afonso VII como os seus conselheiros poderão ter previsto esta jogada do nosso primeiro Rei apenas insistindo na inclusão no tratado daquela condição somente para Leão e Castela ter uma saida honrosa até porque tempo não faltou para Leão e Castela exercerem represálias sobre Portugal e o seu Rei pois a resposta de Roma só surgiria 36 anos depois, em 1179, ainda D. Afonso Henriques era vivo e reinava. Não vamos cair no erro de pensar que só D. Afonso Henriques e os seus homens de confiança é que eram políticamente geniais e que os leoneses-castelhanos eram todos burros.
Como se disse anteriormente, a resposta de Roma à Clovis Regni (que equivaleria ao «reconhecimento internacional» da independência de Portugal) dá-se apenas em 1179 através da bula papal Manifestis Probatum - que em português significa «está claramente demonstrado» ou «está provado por argumentos irrefutáveis» - na qual o Papa Alexandre III reconhece Portugal como Reino independente e D. Afonso Henriques como seu Soberano.
Eis o conteudo da Bula Manifestis Probatum na qual Alexandre III se refere a Portugal e a D. Afonso Henriques nestes termos:

«Afonso, caríssimo filho em Cristo, ilustre Rei de Portugal, e aos seus herdeiros para sempre. Está provado por argumentos irrefutáveis que, como guerreiro e vencedor intrépido dos inimigos do povo cristão, e como propagador da fé cristã e ainda como bom filho e príncipe católico, concedeste muitíssimos favores à Santa Igreja, tua Mãe, deixando para a posteridade um exemplo a imitar. É justo, pois, que a Sé Apostólica distinga com afeição sincera aqueles que a graça de Deus destinou ao governo e salvação dos povos, e se esforce em atender os seus justos pedidos. Portanto, considerando a tua pessoa cheia de prudência e de justiça para o governo de um povo, aceitamo-la e ao Reino de Portugal sob a nossa protecção e do Apóstolo São Pedro, com integridade de honra do Reino e com a dignidade que pertence aos reis. Da mesma maneira, aceitamos as terras que com o auxilio da graça divina arrancaste das mãos dos infiéis»

domingo, setembro 24, 2006

PORTUGAL TEM UM REI

Atentemos nesta recente entrevista dada por SAR D. Duarte de Bragança à revista Just Leader; façamos uma reflexão profunda e meditemos sobre as suas palavras e ideias. É altura de pensarmos pela nossa cabeça, ter sentido crítico, avaliar as alternativas (válidas) que temos ao nosso dispor, olhar para Espanha, Suécia, Noruega, Luxemburgo... e deixar de lado as ideias pré-concebidas e o ramal balofo cheio de chavões e (maus) argumentos do republicanismo estéril que pouco ou nada tem para dar se é que neste quase um século deu alguma coisa a Portugal exceptuando golpes e contra-golpes, crises, ditaduras, anarquia, perseguições e... bem, é estudar a História de Portugal neste ultimo século e tirar conclusões!
E se Portugal voltasse a ser um Reino? Seria assim que eu escrevia... É o 'Pedra' de regresso às GRANDES CAUSAS!


JUST LEADER
Setembro 2006
Título: GRANDE ENTREVISTA D. Duarte Pio

E se Portugal fosse uma Monarquia?
Por Alexandra de Almeida Ferreira

D. Duarte estudou Agronomia mas se pudesse teria tirado o curso de Arquitectura. Defende a Monarquia como uma alternativa à corrupção governamental e como um selo dos interesses nacionais… acima de qualquer outra coisa. Se Portugal fosse uma Monarquia e ele subisse ao trono garante que a sua missão seria “a defesa permanente dos valores da lusofonia”Não é todos os dias que se conhece um rei. E não se é rei porque o Parlamento assim decide nem se deixa de o ser porque não vivemos numa monarquia. Nasce-se rei, é-se educado para ser rei e morre-se assim… rei. E se for um bom rei carrega o peso de um país nas costas. Assim o é D.Duarte, Duque de Bragança. Em Portugal, o rei não vive num palácio. As maçanetas da porta não são de ouro, só há duas empregadas - e uma está de férias - e o jardim até está a precisar de um jardineiro. Não há coroa nem manto. Não há corte. Há um homem mais alto do que se espera, mais carismático do que o querem fazer parecer e sobretudo politicamente corajoso.Estudou agronomia e diz que a economia que importa é a que produz, por isso não liga à OPA na Portugal Telecom nem no BPI. Liga à agricultura. Um rei é assim. Uma pessoa algo desfasada da realidade e talvez até tendenciosa na forma de ver um país. Mas ninguém pede a um rei que seja primeiro-ministro e nos tire da cauda da Europa, que resolva o problema do desemprego e reduza o défice do PIB. Não é para isso que serve.D. Duarte não é um homem moderno, é um homem tradicional.Tem valores pouco habituais e tem alguma coisa de “E Tudo o Vento Levou” na parte em que Scarlett O’Hara agarra no pó e na terra de Tara e a volta a cultivar. A economia que interessa é a que produz. Este rei já só é uma referência na história de Portugal que já vai longa e que já poucos de nós a sabe de cor e os outros fazem questão de não saber.Se não fosse rei era arquitecto. Mas não se escolhe ser rei. É-se escolhido. E se Portugal fosse uma monarquia, D. Duarte encabeçava-a e, para quem duvida, o país não ficava mal na fotografia. É ele o líder da Monarquia em Portugal, o homem que foi educado para ser o líder de todos nós.

Just Leader (jL) – Afirmou muitas vezes que Portugal não tem raciocínio lógico. Porque diz isso?
D. Duarte (DD) - Portugal tem um modelo cultural errado porque peca pela ausência de raciocínio lógico: as pessoas sabem o que querem e o que não querem, mas depois, quando agem, não agem com lógica. Por exemplo, todos sabemos que Portugal tem um problema de trânsito mas ninguém evita deixar o carro mal parado. Há falta de inteligência lógica. Achamos que o país tem um problema de desemprego e que as indústrias nacionais vão todas à falência mas quando vamos comprar não preferimos os produtos nacionais.

jL - Mas o que é que falta? Orgulho nacional? Uma alma comum?
DD - Há várias coisas que faltam. Sentido patriótico, preocupação com os outros, civismo, entre outras. Mas falta essencialmente raciocínio lógico. Estou a lembrar-me de um caso interessante. Quando foi a inauguração da Exponor em Santa Maria da Feira, eu fui visitar o local e estava lá o mestre de obras a quem perguntei quem tinham sido as fábricas das cadeiras que lá estavam. E ele responde-me: ´ah! É tudo muito bom! É tudo italiano!’. Ora, eu não percebo! Isto pertence aos industriais do norte do país que são quem fabricam os móveis - os mesmos que estão preocupados com a concorrência estrangeira - e foram comprar 80 mil cadeiras no estrangeiro?!.

jL - Porque talvez os nossos produtores não tenham capacidade de respostaem tempo útil e a preços competitivos…
DD - Claro que têm! Não têm dois meses antes, mas se forem avisados com mais antecedência preparam-se e, se uma fábrica sozinha não for capaz, dez juntas têm.

jL - Mas para isso era preciso que existissem clusters industriais em Portugal…
DD - Mas pertencendo a Exponor aos industriais do norte, este era o último caso onde eu esperava ouvir aquela resposta. Mas eu tenho uma suspeita: alguém recebeu uma comissão do fabricante italiano mas não posso confirmar. Mas a explicação que o mestre de obras me deu foi que o PSD, na altura em que estava no Governo, queria fazer o congresso do partido ali e tinha muita urgência. Então tiveram que comprar tudo rapidamente e a indústria portuguesa não conseguia dar resposta dentro do prazo. Ora qualquer país normal, seja na América do Sul, do Norte, Europa ou na Ásia , quando uma instituição pública ou um Governo vai fazer um concurso para qualquer coisa, primeiro avisa a indústria nacional, com um ano de antecedência, sobre as condições e, quando o concurso está perto, só a indústria nacional é que está preparada. Há pouco tempo aconteceu o contrário: o Instituto do Vinho do Porto encomendou um milhão de cálices do Vinho do Porto com um desenho novo especial do Siza Vieira. Aquilo estava desenhado de tal forma e exigiam condições técnicas tão específicas que só uma fábrica em França os podiam fazer. As fábricas portuguesas precisavam de uns meses para comprar maquinaria para poder fazer o cálice conforme o desenho. Das duas uma: ou o Siza ou Instituto do Vinho do Porto receberam uma comissão da fábrica em França, ou então estão todos loucos. O símbolo de Portugal – o Vinho do Porto – vai comprar copos no estrangeiro?! Pagos com o dinheiro dos contribuintes!Depois vêm os vidreiros da Marinha Grande fazer manifestações por causa do desemprego quando deviam era insurgir-se contra o Instituto do Vinho do Porto! Para que é que serve uma greve em tempo de crise? Só para enterrar ainda mais a empresa!

jL - Foi assim que interpretou o encerramento da fábrica da General Motors naAzambuja?
DD – Claro. Se começam a fazer o mesmo na Autoeuropa, o fim é o mesmo. Na Azambuja devia ter existido uma negociação melhor conduzida da parte do sindicato dos trabalhadores para se chegar a uma situação onde a General Motors ganhasse dinheiro por se manter cá e não prejuízos.Porque se eles vão fechar a fábrica e mudar-se para Espanha é porque vão ter mais lucros. Aliás esse é o grande problema das empresas portuguesas pertencerem a estrangeiros ou a multinacionais: não há qualquer interesse nacional, só e exclusivamente interesse pelo lucro. Se as empresas forem nacionais há uma preocupação mais social e humana e até política com a sua própria imagem pública.Não é só o lucro. Há fábricas em todo o mundo que aguentam o prejuízo em tempo de crise por razões maiores que o lucro imediato.

jL - Mas para se manter as empresas em mãos nacionais está-se, na maioria dos casos, a sacrificar a dimensão e, logo, a competitividade…
DD – Pois, isso é verdade mas pode resolver-se, em muitos casos, com associações livres entre a indústria portuguesa e a estrangeira e há grupos que o fazem: são complementares mas a propriedade mantém-se em mãos nacionais com um funcionamento em moldes internacionais.Os hotéis portugueses fazem muito isso: associam-se a marcas estrangeiras.

GERIR BEM SEM FAZER MAL

jL: Que tipo de gestor seria?
D. Duarte - S. Tomás de Aquino compara um Estado a uma associação de malfeitores. Ambos podem governar um país. A associação de malfeitores pode governar mas o objectivo será sempre o lucro, nem que para isso tenha de roubar e governar com leis imorais. Um Estado tem de governar para garantir a felicidade ao mesmo tempo que o progresso material e espiritual do povo. Mas esta também deve ser a função do empresário: além do lucro, o desenvolvimento humano das pessoas que trabalham na sua empresa.

jL - Dentro do tecido empresarial português que empresas lhe despertam a atenção seja por bons ou maus motivos?
DD – Cerca de 70% das empresas portuguesas são de pequena e média dimensão e grande parte delas têm tido grande sucesso a nível internacional. Temos desde um dos melhores fabricantes de violinos do mundo a uma das melhores fábricas de lentes de máquinas fotográficas e equipamentos electrónicos. E há casos extraordinários de sucesso na agricultura. Nas grandes empresas há, evidentemente, os casos mais emblemáticos de sucesso. A mim interessa-me sobretudo as empresas no campo da produção industrial ou agrícola. Não tenho assim grande interesse pelo sector do comércio porque a economia que interessa é a que produz coisas.

A POLÍTICA EM PORTUGAL

“HÁ ALGUNS PRESIDENTES DE HOJE QUE DEVIAM SER PRESOS POR NEGOCIATAS E FRAUDES. NÃO HÁ NENHUM REI NA EUROPA COM ESSES PROBLEMAS...”

jL - Por falar em Presidente da República, como é a sua relação com Cavaco Silva? É a pessoa certa para o lugar?
DD - É muito boa desde há muitos anos. Tenho muita admiração por ele. Haveria outras pessoas indicadas mas eu acho que, pelo seu passado e sobretudo pelo que tem vindo a demonstrar desde que assumiu o cargo, é certamente uma pessoa muitíssimo indicada para aquele lugar. Pelo menos não acredito que ele vá demitir o Governo porque se zanga com o primeiro–ministro. Não acredito que ele vá ter esse tipo de atitude que infelizmente já aconteceu em Portugal.

jL - Isso é uma farpa a Jorge Sampaio? Cavaco é melhor que o seu antecessor?
DD - Eu acho é que as pessoas que temos tido como Presidente da República em Portugal são sempre excelentes, bem intencionadas e bem formadas. O problema está na instituição em si, não nas pessoas.É muito difícil ser-se um Presidente da República que actua como um rei que é aquilo que os portugueses querem. Os portugueses querem um Presidente da República que seja como um rei.Alguém que seja um exemplo, modelo para o país, que se porte bem e que não favoreça o seu partido político, que não ajude os seus pares, que seja próximo das pessoas. Querem uma série de qualidades de um rei. É muito difícil ser-se um Presidente independente.

jL - Essa independência de que fala é a grande vantagem de uma monarquiaconstitucional?
DD - Pelo menos tem sido uma vantagem para todos os países que a têm com a excepção de uns países exóticos lá no fim do mundo, como o Nepal.

jL - Acha que a monarquia constitucional deveria ser referendada? Qual é que acha que seria o resultado?
DD - Depende da formulação. Se o referendo fosse feito de forma tendenciosa, género “quer regressar ao regime que tínhamos antes de 1910?”, se fosse uma pergunta assim muito torta como foi a que se fez no referendo do aborto, efectivamente o resultado seria mau…

jL - Como é que faria a pergunta se fosse o D. Duarte a redigi-la?
DD – “Prefere ter como chefe de Estado para Portugal um Presidente da República ou um Rei?”. Depois as pessoas iam informar-se sobre o que é um e o que é outro.

jL - E qual é a sua definição de cada um deles além da diferença óbvia de umser escolhido e o outro não?
DD - O rei também é escolhido de algum modo. Só que é escolhido uma vez na vida quando é aclamado rei pelo Parlamento quando este o aceita. Se o rei fosse muito impopular e tivesse praticado actos graves, o próprio Parlamento pode demiti-lo. O que acontece nessas alturas é que há uma linha de sucessão natural mas o sucessor pode ser chumbado. O que não há é uma disputa pelo poder e pela chefia de Estado. Mas o que se passa é que o povo não escolhe muita coisa nas presidenciais. Escolhe uma das duas pessoas apoiadas pelos dois maiores partidos e normalmente ganha aquele que tiver o melhor brasileiro como relações públicas. Com excepção do que já lá está e pode continuar. Esse ganha sempre porque os portugueses não gostam de mudar.

VIVI NO EXÍLIO ATÉ AOS SETE ANOS

jL - Que percepção é que acha que os portugueses têm de si? Distância? Umaaura negra em torno da monarquia porque a vêem como um regresso à IdadeMédia…?
DD - Não posso saber o que vai na cabeça das pessoas, excepto pelas sondagens que vou vendo. O que eu sei é que quando vou a uma cidade ou vila a convite de uma Câmara ou organização local, normalmente há uma grande quantidade de pessoas que vêm, um grande carinho, toda a gente me trata muitíssimo bem. Tenho aceite uma média de 30 a 40 convites por ano de Câmaras Municipais e organizações e sou sempre bem recebido. As sondagens é que apresentam resultados muito curiosos. Dizem, por exemplo, que 70% acha que devia haver um rei a morar num palácio real mas não querem mudar as instituições actuais porque não sabem muito bem o que mudaria.

“O POVO NÃO ESCOLHE MUITA COISA NAS PRESIDENCIAIS. ESCOLHE UMA DAS DUAS PESSOAS APOIADAS PELOS DOIS MAIORES PARTIDOS E NORMALMENTE GANHA AQUELE QUE TIVER O MELHOR BRASILEIRO COMO RELAÇÕES PÚBLICAS”

jL - E o que é que mudaria? Haveria mais união e identidade portuguesa?
DD - O único termo de comparação que se pode ter hoje em dia para como funcionaria, actualmente, uma monarquia em Portugal não é o nosso passado nem o futuro porque nenhum deste existe. O único termo é o presente e este pode ver-se no resto da Europa e no mundo.E todos acham que, nesses países o rei funciona muito melhor, tem muito mais ligação ao país, participa de uma maneira mais construtiva na vida nacional, não entra em conflito com o Governo, é mais económico. Há muitos presidentes da República hoje em dia que não são muito democráticos: América do Sul, Ásia, África… ainda não há muitos anos eram ditaduras, agora são democracias de disfarce. Há alguns presidentes de hoje que deviam ser presos por negociatas e fraudes. Não há nenhum rei na Europa com esses problemas…

jL - Há um compromisso moral maior com o país?
DD - Exactamente. Há uma experiência, há um ensino, desde crianças que somos mais ou menos preparados para assumir essa responsabilidade.

jL - Como é que é essa preparação? Limitou-o enquanto criança nas suas aspirações?
DD - Vivi no exílio até aos sete anos depois vim para uma república, estudei no Colégio Militar, fiz a tropa, fiz serviço militar na Força Aérea. Fiz uma vida normal como qualquer português. A diferença é que, pela minha educação, fui sempre levado a dar prioridade a tudo o que é o interesse nacional e a pôr os meus interesses e gostos pessoais e particulares em segundo lugar. Isto fez com que nunca tenha enveredado numa vida de empresário a ganhar muito dinheiro ou que tenha escolhidouma profissão que me interessasse muito do ponto de vista intelectual.

jL - Mas se pudesse, o que é que gostava de ter feito?
DD - Eu estudei agronomia mas, na verdade, eu teria gostado de arquitectura. Teria gostado de ter estudado na escola de arquitectura da Universidade Católica mas que, por ultimato da Ordem dos Arquitectos na altura, foi despedido o director e normalizaram-na de acordo com o “pensamento único obrigatório” autorizado em Portugal.

jL - Parece que está a falar do “rendimento mínimo garantido” …
DD - Não, estou a falar mesmo do regime soviético ou taliban, em que é obrigatório pensar de determinada maneira (risos).

E SE FOSSE REI?

jL - Se fosse rei de Portugal quais seriam as suas prioridades para o país?
DD - Basicamente a defesa dos valores permanentes da lusofonia. Ou seja, eu considero que, em primeiro lugar a minha responsabilidade é com Portugal. E há valores permanentes como a cultura, os direitos das minorias, a defesa da natureza e do ambiente que são parte sintrínsecas da identidade cultural portuguesa. Por outro lado, a independência nacional. Quantos povos há hoje na Europa que têm identidade cultural mas não têm independência, como é o caso dos bascos…

jL - E como é que se conjuga identidade nacional numa União Europeia que já nem é a 15 mas a 25?
DD - Essa é a grande alternativa que se coloca. Ou a Europa se desenvolve com respeito pela identidade e independência dos povos ou, se pretende fazer uma caldeirada em que todos os peixes sabem ao mesmo e conseguem, é a destruição dos povos da Europa e o nascimento de uma utopia que é a noção de Estados Unidos da Europa em que não acredito e que acho que vai ruir com a revolta desses povos. Ou então seguimos o exemplo dos modelos de uniões de sucesso como é o caso da confederação helvética. Que resulta porque se respeita até hoje as diferenças, as culturas, as línguas, as leis –cada cantão da Suiça tem as suas leis. Os cantões suíços têm muito mais diferenças e liberdades do que têm hoje os Estados da União Europeia.

jL - O chumbo do Tratado da Constituição Europeia foi sintoma dessa fragilidade…
DD - E se os povos europeus fossem realmente livres, estou convencido de que todos o chumbavam, só que alguns foram quase obrigados e intimados a votarem a favor. E foi sintoma não da fragilidade da União Europeia mas das utopias federalistas europeias. Um dos grandes criadores da União Europeia foi o meu tio, Otto de Habsburgo, que foi eurodeputado até aos 90 anos - e é um europeísta entusiástico desde o tempo de Adenhauer - e ele disse-me «felizmente que chumbou o Tratado da Constituição Europeia porque isto é uma traição aos verdadeiros ideais da Europa». A Europa tem de ser no máximo uma confederação de Estados europeus independentes cuja solidariedade tem de ser muito defendida como acontece na Suiça mas com total respeito pelos direitos à diferença.É absurdo igualizar tudo na Europa. No Tratado da Constituição Europeia existia um capítulo de excepções em que Malta impôs nunca ser obrigada a aceitar a legalidade do aborto. Portugal – sempre bem comportadinho – não impôs excepção nenhuma. E Portugal, como Malta, é um país católico com governos ateus e leis anti-cristãs.Onde é que está a democracia?

jl- O Presidente Reagan chegou a incentivá-lo a candidatar-se a Presidente da República. É um pró-América?É um pró-América?
DD - O Presidente Reagan disse-me isso em Washington, num jantar sobre as relações entre os Estados Unidos e Portugal onde estavam outras personalidades, entre elas Zbigniew Brezinsky, ex-Conselheiro dos Negócios Estrangeiros. Reagan disse-me que as informações que tinha eram que eu tinha condições para ganhar as eleições e que para os Estados Unidos, Portugal sempre tinha sido um aliado importante que esteve presente em todos os momentos de crise ao lado do seu fundamental e uma monarquia em Portugal garantiria a independência de Portugal relativamente a Espanha de uma forma que a República não fazia.

jL - Mas é um pró-América?
DD - Penso que ser aliado de um país e criar uma relação de confiança com a potência dominante do Atlântico – que já foi Inglaterra mas que hoje é os Estados Unidos – é fundamental. A não serque, a determinada altura, os interesses de Portugal e os Estados Unidos fossem opostos e aí prevaleceriam os de Portugal, o que não é o caso. Neste sentido, acho que não podemos sacrificar esta aliança em prol dos interesses de outros países terceiros que não se assumem como aliados dos Estados Unidos.

sábado, setembro 02, 2006

Finalmente






O prometido é devido!!! Estava a ver que nunca mais era mas lá foi agora que cacei o Neru a fazer aquilo que... mais gosta de fazer. Mas não fica por aqui! Não é à toa que o Neru é o alvo mais apetecido da minha objectiva... basta ver as imagens hilariantes que proporciona. Eis o modus vivendi de Quim Pestana O Neru:

sábado, agosto 26, 2006

Figuras pitorescas do Torrão II







Eram em número substancial e qual delas a melhor mas quis o destino que, ao que dizem, é fatal, o disco do meu computador tivesse «ido pelos ares» e como consequência todos os meus dados não ficaram apenas seriamente comprometidos antes ficaram de todo irrecuperáveis. Mas agora voltei a atacar e já não caio nessa. Assim lá vai:
Apresento-vos a segunda figura pitoresca do Torrão - Quim Pestana, mais conhecido por NERU.
Tinha andado a «empalhar» à espera de conseguir as fotos com a imagem do seu «modus vivendi» e o que ganhei foi o que disse. Foi uma pena; as fotos eram do mais hilariante que havia mas não há crise pois estas não lhe ficam atrás! Quando eu tiver mais...

domingo, agosto 06, 2006

Torrão - Perspectivas nocturnas

O Neru a dormir... e a curtir a bebedeira


A palmeira do posto médico com a Lua em pano de fundo


Uma outra perspectiva do mesmo local


No céu de Julho, a Lua em Quarto Crescente




Quem havia de dizer que passado pouco menos de uma semana este fosse mortalmente atropelado. Fica a imagem... do Benfica.

segunda-feira, julho 31, 2006







Foi agitada a tarde e noite deste 30 de Julho. Ainda de manhã eu tinha tirado fotos daquele local e à noitinha teria de voltar para tirar estas. Foi «por trás» da Horta dos Passarinhos, na Cabeça d´Águia que deflagrou este incêndio. Ao que parece, as chamas propagaram-se por uma grande extensão chegando a atravessar o rio Xarrama. Atravessar o Xarrama é como quem diz pois nesta época do ano o rio está praticamente seco.

Mas foi bem feito o que aconteceu. Exacto leram bem; foi BEM FEITO. Ninguem limpa as matas e depois é isto que se vê. Na verdade, ao longo do vale do Xarrama, tirando pequenos troços, o matagal é mais que muito; há inclusive zonas do rio que são praticamente inacessiveis devido a este matagal constituido essencialmente por silvados e estramagueiras e há ainda troncos que são arrastados pela corrente e que de verão ficam ali a secar. Ainda este inverno eu tinha ido à pesca para aquela zona e verifiquei que se ali deflagrasse um fogo num verão este iria dar bastantes dores de cabeça. Pelos vistos não me enganei!

Há outra zona que se nada se fizer será pasto para as chamas. Estou-me a referir à barragem de Vale do Gaio. Há muito que eu prevejo uma catástrofe para aquelas bandas. Só não vê quem não quer ou... não pode.

Como se vê os incêndios podem ser evitados... ou potenciados. Agora escolha!!!

domingo, julho 30, 2006

De parabéns

Portugal está de parabéns. Alunos portugueses conseguiram arrebatar três medalhas de bronze e uma menção honrosa nas Olimpíadas Internacionais de Matemática que se realizaram entre os dias 6 e 18 de Julho em Ljubliana, na Eslóvenia.
As Olimpíadas Internacionais de Matemática realizam-se desde 1959 e em 2006 contaram com a presença de 104 países. Aos trofeus até agora obtidos vão-se juntar as três medalhas de bronze e sete menções honrosas conquistados por Portugal desde a sua primeira participação em 1989.
Esperemos agora que aqueles que vão representar Portugal nas Olimpíadas Ibero-Americanas de Matemática que se realizarão de 23 a 30 de Setembro em Guayaquil, no Equador, tenham o mesmo sucesso. Quanto a mim só lhes posso desejar Boa Sorte.
Isto só mostra que Portugal também tem gente muito boa a matemática embora só a mediocridade é que seja notícia. O problema é que aqueles alunos que são barras a matemática são uma pequenissíma percentagem quando comparados com aqueles que não vão além das negas. O grande desafio que Portugal tem pela frente é, justamente, conseguir que cada vez mais e mais alunos consigam esta performance.
Ah é claro este tipo de competições passam praticamente despercebidas do grande público que só se preocupa com o pontapé na bola. Competições futebolisticas onde Portugal tem resultados confrangedores é que são importantes mas competições com esta em que a Rainha não é a bola mas a Matemática, uma ciência que está por detrás de toda a nossa tecnologia, «não interessam a ninguém» e depois admiram-se de, infelizmente, Portugal ser um atraso de vida.

Torrão - Perspectivas paisagísticas

A Horta dos Passarinhos




Uma paisagem tipicamente alentejana... não é para menos!


Ao longe, o monte das Cruzinhas e a Horta do Pinheiro


O Torrão visto da Ermida


O Torrão visto do seu ponto mais alto


O Moirão, espelho de água devido à Barragem de Vale do Gaio... belíssima imagem não?


O torrão visto do seu ponto mais alto... onde está situado o depósito de água. Não é para menos!


Uma outra perspectiva do mesmo local. Porque é que a torre da igreja Matriz não aparece? É simples! Pura e simplesmente por vergonha... está preta que nem carvão. Há mais de uma década que não vê nem cal nem tinta!!! Caso único na região... não tenho dúvidas.


Todas as fotos foram tiradas de manhã!

terça-feira, julho 25, 2006

Nostalgia

Retrato do bloguista quando (mais) jovem

Depois de um periodo relativamente grande de inactividade «bloguista» eis que de repente fui invadido por uma força que me impele a «blogar» que nem um maluco. Esta febre que de repente me possuiu não só me impulsiona a «postar» como me leva a tornar o «Pedra» menos pesado, menos duro, menos austero e, como é obvio, menos maçudo. Agora, para além da análise política e de outros assuntos que dominam a actualidade abro o leque a diversos temas tentando sempre que possivel adicionar uma imagem a cada «post» pois já lá diz a sabedoria popular que uma imagem vale mais que mil palavras.
A nostalgia do passado deu-me para isso. Não é nenhum cromo! Nem tão pouco uma figura pitoresca do Torrão - não tem estilo para isso. Eis-me aqui retratado em Agosto de 1988.
Ó tempo volta p´ra trás!!!

Outros mundos





Espectacular! É a unica palavra que eu consigo encontrar para descrever estas espantosas imagens. Foi sem duvida coisas como estas que me levaram a estudar e licenciar em Física.

Figuras pitorescas do Torrão I



Fotos by PAULO SELÃO

É sem duvida uma das personagens mais pitorescas do Torrão. Ernesto Esquina mais conhecido como Saruga.

domingo, julho 23, 2006




Fotos by PAULO SELÃO


O meu canário mais «carismático». Eis o BIGODE!!!

Mi casa es su casa

Foto by PAULO SELÃO


Eis a minha sala de entrada; ornamentada com a mais bela bandeira do mundo. Primeiro que a verde-rubra só mesmo a antiga e quiçá futura belíssima bandeira do Reino de Portugal.

domingo, julho 09, 2006

Somália – O ressurgimento do «talibanismo»?

Pode estar ainda a passar despercebido a muita gente aquilo que se passa na Somália – talvez por ter estado tudo com os olhos postos no Mundial de futebol; quem sabe? – mas o que é certo é que o novo movimento que está a surgir no desgovernado país do «corno de Africa», denominado Tribunais Islâmicos, tem tudo para vir a fazer da Somália um novo Afeganistão. Este movimento que vai ganhando força de dia para dia já demonstrou a sua verdadeira natureza. Proibiram a assistência do Mundial de futebol e se dúvidas ainda existiam, surgem agora rumores de que um grupo de homens armados, pertencente aos Tribunais, irromperam por um casamento adentro proibindo a música, agredindo as mulheres e confiscando os instrumentos musicais alegando que a música ali tocada era «diabólica» contrária aos preceitos do Islão. Onde é que já ouvimos isto? Ou eu me engano muito ou o próximo passo dado por esta milícia será impor às mulheres somalis o uso da burka.
É claro que quando este movimento se conseguir impor em todo o país e começar a governar a Somália, um país praticamente sem Governo há mais de uma década, com mão de ferro corre-se o risco da Somália se vir a transformar num novo santuário terrorista. Basta o mundo estar distraído... apenas com o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte.

sábado, junho 17, 2006

Boa Sorte Portugal


Embora ache exagerado o ambiente em torno do Mundial e concorde em absoluto com Alberto Gonçalves e Alfredo Barroso - daí eu ter publicado os seus textos no «Pedra» - não posso deixar de desejar boa sorte a Portugal para o resto do Mundial esperando que a participação portuguesa seja um exito. Bem sei que vem tarde, contudo o execesso de trabalho não me tem deixado muito tempo disponivel para «postar».

Luis Afonso in Correio da Manhã

A elite das chuteiras

A cada dois anos, o ritual segue um protocolo rígido, Há uma competição internacional de futebol. Portugal em peso entra em histeria «patriótica». Algumas almas queixam-se do massacre e são imediatamente suspeitas de conspirar contra o «povo». Preparam-se as fogueiras.
Ainda há dias, coube ao director de «A Bola», Vítor Serpa, acusar Pacheco Pereira do terrível crime de «elitismo». Evidencias? Pacheco Pereira tem fama de «intelectual» e, não satisfeito, escreve artigos em que insinua desinteresse por Cristiano Ronaldo, pelas condições sanitárias da selecção em estagio e pelo futebol em geral. Que a lenha arda devagar.
Entretanto, gostaria apenas de sugerir que «elitismo» não me parece a acusação adequada. Desde logo, o nosso senso comum mostra-nos que as nossas «elites» são altamente sensíveis ao futebol. O prof. Marcelo inventou as bandeirinhas. O dr. Sampaio é um fervoroso adepto. E não têm em conta as «altas personalidade» da política, da cultura e das finanças que trocam o expediente pela sedução de uma final. Mais: os 725 programas sobre o assunto estão atafulhados de romancistas, realizadores de cinema, académicos e restantes espécimes a que, por conforto ou generosidade, podemos chamar de «intelectuais». Como se nota, nem é preciso sair do país e invocar o recorrente aval de Camus, de certos romancistas britânicos, espanhóis e argentinos e, sobretudo, das letras brasileiras, as quais, de Gilberto Freyre a Drummond de Andrade, reverenciam amiúde o dito desporto-rei.
A bem dizer, tirando referências pontuais (e muito classe média: o meu pai, o meu avô paterno, os meus melhores amigos), só vi indiferença generalizada pela bola no Interior rural, que talvez não seja um exemplo nítido de elitismo. Quando eu era uma criança benfiquista e fanática, as viagens à aldeia, inúmeras que fossem, eram sempre acompanhadas de um ligeiro choque: aquelas pessoas, da minha geração, e das gerações acima, não falavam de futebol. No máximo, alguns jogavam-no. Infelizmente, melhor que eu.
Elitismo? O prof. Nuno Crato lembra que o futebol, no qual o sucesso é reservado a pouquíssimos (afinal milionários), é mais elitista que a matemática. O elitismo não é o problema. O problema é que, à semelhança do que sucedeu com Timor, ou com a Expo (ambos com resultados brilhantes), os «desígnios nacionais», na falta de legitimação real, valem-se da unanimidade cega e não admitem excepções. Hoje, não apreciar futebol já é doentio: não venerar a selecção constitui uma violação da paz social, merecedora das piores torturas e insultos. Dentre estes, «elitista» soa bem, mexe nos cordelinhos exactos e serve a grotesca propaganda oficial. Embora não signifique coisa nenhuma.
Até porque há os casos complicados. Como o meu, que gosto de futebol mas prefiro um bom livro, que verei o Mundial mas sem ardores nacionalistas, que delirava com Futre mas não perco tempo com Figo, que tenho uma sogra que foi amiga de Garrincha mas não falo com ela. Eu sou o quê? Elitista? Populista? Esquizofrénico? Aguardo, ansioso, que Vítor Serpa me esclareça.

Alberto Gonçalves in Correio da Manhã

Provocação sem bola

Então e a judoca Telma Monteiro – que conquistou há cinco dias, na Finlândia, o titulo de campeã da Europa – não merecerá patrióticas bandeirinhas nacionais hasteadas em tudo o que é sitio, desde as janelas dos prédios aos tejadilhos dos táxis, passando por portas de mercearias e supermercados, átrios de centros comerciais, bombas de gasolina, cartazes publicitários e ecrãs de televisão?! E haverá 15 mil mulheres dispostas a formar uma nova bandeira humana para homenagear uma jovem atleta de alta competição, com apenas 20 anos, que já arrebatou duas medalhas de ouro, uma de prata e cinco de bronze em campeonatos europeus e mundiais de juniores, de sub-23 e de seniores – e que, neste momento, lidera o ranking mundial de judo na sua categoria (-52 Kg)?!
Estas perguntas são uma provocação, bem sei. O judo não é um desporto popular e mediático que atraia as massas (tanto em sentido próprio com figurado) e mereça um investimento «patriótico» das televisões, da banca, do petróleo, da cerveja sem álcool, e de empresas nacionais e multinacionais de refrigerantes e de artigos desportivos. Quem é que quer ouvir em ippon, yuko, waza-ari ou koka, quando o orgulho da pátria se traduz em off sides, corners, penalties, dribles, fintas, pontapés e golos? E quem é que já ouviu falar no Centro Cultural e Desportivo Construções Norte-Sul, o clube de Almada que a Telma Monteiro representa? Mais: quem é que imagina os sacrifícios que esta jovem atleta olímpica de alta competição tem de fazer e as dificuldades em angariar patrocínios, apesar do notabilíssimo currículo desportivo que ostenta?
É muito mais fácil e mediático encher as primeiras páginas dos jornais e abrir os telejornais com as derrotas, humilhações e fiascos das selecções nacionais de futebol – tanto a principal (Mundial 2002) como a olímpica (Olimpíadas 2004) como, agora, a de sub-21 (Euro 2006) – do que com o feito, inédito, da primeira portuguesa a conquistar o titulo de campeã europeia de judo. Falo desta modalidade desportiva bastante exigente, quer em termos físicos e psicológicos quer em termos técnicos e tácticos, como poderia falar de outras modalidades desportivas que em Portugal já teve magníficos praticantes, como o atletismo, hoje sem infra-estruturas físicas que permitam o treino adequado (em Lisboa, quase só resta o Estádio Universitário). Não me espanta, por isso, o lamento do velho professor Eduardo Cunha (tem 80 anos e ainda treina): «Tenho medo de verdade que Portugal seja campeão mundial de futebol. Porque aí é que acaba tudo!»
Gosto muito de futebol, percebo que ele seja um poderoso factor de identidade e ficaria radiante se os «nossos pés da Pátria» conquistassem o título mundial. Mas custa-me a engolir o desprezo a que são votadas outras modalidades desportivas em Portugal. Sobretudo custa-me a perceber esta insólita associação entre patriotismo e publicidade no futebol. Nunca fui marxista, leninista, maoísta ou trotskista, mas não tenho a menor duvida de que o capital não tem pátria. É tão evidente como o jogo de futebol.

Alfredo Barroso in Diário de Noticias

quinta-feira, maio 25, 2006

Estes não brincam

Se alguns pensavam que a final da Taça de Portugal iria ser um «remake» do ano passado enganaram-se. Tal como o ano passado, um dos finalistas tinha-se sagrado há poucos dias campeão. A equipa adversária foi a mesma: o histórico Vitória de Setúbal. Só que a atitude deste campeão foi diferente da do ano passado. O FCP que se sagrou campeão este ano foi de poucos festejos e pouco champanhe. Comemoraram quanto baste, no Dragão, a conquista do campeonato, fecharam-se em copas, adoptaram um «low profile» e assim foi até ao dia do jogo. Dos próprios adeptos também pouco se viu nos festejos do campeonato. O que se passaria?
O meu Benfica foi campeão o ano passado depois de mais de uma década de jejum. Houve festa rija entre os adeptos, jogadores e demais figuras. Grande negócio e grande furo para os media. Mas ainda havia mais uma final para disputar. A ser ganha, o Benfica concretizava algo que não conseguia há duas décadas: a «dobradinha! Mas que importava isso?! O que é que aconteceu? Loucura, desleixo, pouco profissionalismo, uma autêntica irresponsabilidade.
O Benfica sagra-se campeão no Bessa, vem em festa todo o caminho, chegando a Lisboa de madrugada. No dia seguinte há folga - e o Vitória treinava - depois houve, curiosamente, uma gala no Porto onde o plantel do Benfica e o seu treinador foram homenageados. Em vez de ir só este e, no limite, o capitão de equipa... foram todos. Toca a ir para o avião para estar na gala nocturna. Depois foi a homenagem na Câmara de Lisboa (que só deveria ter acontecido depois da final da Taça) na segunda-feira - e o Vitória treinava. O jogo era domingo e os treinos no Benfica só começaram três dias antes, na quinta-feira - e o Vitória há muito que estava empenhado e concentrado. Os treinos à porta escancarada com adeptos eufóricos e os jogadores em descompressão e com descontracção total - e o Vitória treinava serenamente em sossego. Para o Benfica o jogo ou era favas contadas ou então, qual cigarra de La Fontaine, haja diversão que depois logo se vê.
Domingo, final da Taça de Portugal 2004/2005. O Benfica teve um entrada promissora e ao intervalo ganhava 1-0. Mas um Vitória bem mais fresco virou o marcador. 1-2 e arrecada a taça. Quem viu o jogo percebia que os atletas encarnados, às tantas já não corriam… arrastavam-se, marcaram um golo e ficaram na expectativa.
O F. C. Porto não foi em cantigas, mostrou maturidade e profissionalismo e depois... bem depois foi o que se viu. O Porto fez a «dobradinha» e a seguir houve festa rija. Para a próxima já sabem embora seja imperdoável uma equipa profissional fazer aquilo que fez. Não admira que o Benfica só faça «dobradinhas» «quando o Rei faz anos»

PS. Ao que parece esta república que ninguém pediu nem sufragou vai mudar a sua designação para República Futebolística Portuguesa. À boa maneira terceiro mundista, na final da Taça de Portugal estavam nada mais nada menos que o Nº 1 da república, Cavaco Silva; o número 2, Jaime Gama; o numero 3, José Sócrates e inúmeros ministros, Secretários de Estado e Deputados. O que é mais grave é que esta situação é recorrente. Só não vi os titulares dos órgãos judiciais. Será que também estavam presentes e eu não os vi ou reconheci?

quarta-feira, maio 10, 2006

Que património histórico?


«Dubitando ad veritatem prevenimus»

É com relativa frequência que se invoca a riqueza e vastidão do património histórico do Torrão como argumento para visitar a nossa terra. Mas será que o património histórico do Torrão é assim tão vasto e rico de tal forma que mereça ser visitado? Ou será que pode mesmo ser visitado? Ou será que está suficientemente preservado e em condições de ser visitado? Eu duvido! E receio que, infelizmente, não seja bem assim senão vejamos:

Comecemos pelo Obelisco de Algalé que invoca um trágico acontecimento decorrido no período da mais sangrenta das guerras civis portuguesas (1832-1834) que opôs Liberais e Absolutistas. Quem quiser visitar este monumento... não pode pois como tal se situa em propriedade privada e como o portão está fechado a cadeado só arrombando o portão ou pulando a cerca e invadindo propriedade privada é que alguém pode ver tal património. Quanto ao obelisco estamos conversados!

A Capela de S. João da Ponte encontra-se encerrada mas quem quiser ver alguma coisa perde o seu tempo pois esta não tem rigorosamente nada lá dentro.

O Convento de Nossa Senhora da Graça é outro caso perdido. Só mesmo o exterior do convento é que pode ser «apreciado» embora este se encontre bastante degradado com as paredes enegrecidas e com algumas partes já sem o reboco. Se alguém quiser ver o que está lá dentro não vale a pena o esforço pois o mais que vai encontrar são os bens dos actuais proprietários. Na verdade, além de não haver qualquer obra de arte no seu interior foi o convento vendido estando deste modo nas mãos de privados e portanto alguém só vê o interior do convento se os actuais proprietários autorizarem. Este monumento é hoje uma triste sombra daquilo que deve ter sido quando foi concluído.

O Monte da Tumba está em estado de abandono há vários anos. Quem visitar o lugar encontra desleixo, abandono... um monumento desprezado.

A Calçadinha Romana é outro exemplo de património abandonado. Na verdade, da última vez que lá estive até houve alguém que se deu ao luxo de a cortar com uma cerca improvisada para não deixar passar ovelhas. Para além disso há partes que estão coberta de ervas e silvas.

As fontes são um bom exemplo de património bem preservado embora algumas sejam recentes (Fonte do Poço de Cima – 1901, Fonte da Ponte - 1915). Uma das mais antigas é a Fonte Santa que, fazendo fé no que é dito no site da Junta de Freguesia do Torrão, é um vestígio da época romana. Contudo, o que não é dito é que a sua forma actual data do século XVIII sendo a sua bela traça um exemplo da arquitectura da época. Quem olha para a fonte identifica quase instantaneamente o seu estilo barroco. Infelizmente isto não é dito informando-se apenas que a fonte tem uma conduta de 100 metros – um pormenor; interessante mas um pormenor na medida em que ninguém vê a conduta nem se vai pôr a medi-la. Pode ter 100, 50, 200 ou 1000 metros que é absolutamente irrelevante.

A Ermida de Nossa Senhora do Bom Sucesso foi de facto restaurada em 1999 mas como raramente alguém lá vai e não se faz a manutenção do espaço, começa a dar os primeiros sinais de degradação. Quem quiser visitar a ermida encontra-a fechada contudo, se o conseguir, vale a pena visitar o seu interior.

O Palácio dos Viscondes do Torrão é onde funciona actualmente o lar de terceira idade havendo contudo algumas parcelas que não estejam nas mãos da Santa Casa da Misericórdia do Torrão mas, mais uma vez, de privados. Ao contrário do que é dito no site da Junta de Freguesia, não foi restaurado. Está a ser restaurado há cerca de uma década estando uma parte de facto restaurada sendo ainda necessários mais uns bons anos até ficar restaurado na totalidade. São ainda visíveis alguns frescos nas paredes mas não vale a pena visitar o interior porque como as coisas estão é perigoso.
Termino comentando o facto de aqui ter sido cometido um erro de gestão. Este edifício tem, na minha opinião, mais vocação para ser um edifício de poder do que um lar da terceira idade até porque para ter acesso aos quartos tem que se subir umas escadas íngremes não muito recomendadas a pessoas na terceira idade. Porque é que não foi realizado um protocolo entre o Governo e a Misericórdia para em vez de construir um posto da GNR de raiz se aproveitar o edifício para ser o posto e ser construído um lar de terceira idade de raiz que não teria necessariamente de ficar no local onde se ergue o actual posto? Infelizmente o mal está feito e a miopia de que dirige o país e as instituições está à vista!

A Igrejinha de S. João fica parcialmente submersa quando a barragem de Vale de Gaio enche na totalidade. Não passa de uma ruína.

A Igreja de S. Fausto (ou Fraústo) está apenas reduzida às suas quatro paredes estando a área interior delimitada por estas, ocupada com um imenso silvado.

A Igreja da Matriz está no estado descrito no anterior artigo. Há anos que as suas paredes não são caiadas e em algumas paredes há partes cujo reboco caiu ficando o tijolo exposto. Para além disso há muitos anos que uma figueira brava e inúmeras ervas daninhas subsistem no telhado minando as paredes e o telhado com as suas raízes e a humidade.

E finalmente a Igreja da Misericórdia também chamada Igreja de Nossa Senhora da Albergaria. Depois de muitas décadas de abandono e degradação foi finalmente restaurada, de acordo com o site da Junta de Freguesia, em 1994. É um monumento que vale a pena visitar pois o seu interior apresenta-se em condições sendo de destacar o altar em talha dourada e quatro retábulos de Arte Sacra datados do século XVI que retratam episódios da vida de Cristo.
Quero contudo deixar um reparo a uma situação que eu não sei se é um grave erro e desconhecimento da Historia de Portugal ou se é apenas um «lapsus calami». Antes de abordar esse assunto, chamo a atenção a quem fez ou está a fazer o site da Junta de Freguesia do Torrão para uma gralha que tem de ser corrigida. A dita gralha está na data de construção da igreja que não foi, obviamente, 1945. Basta os autores do site verem a bibliografia que consultaram para verificarem que a data apontada é 1495. E agora vamos à situação: Quem fez o site não é o responsável pois os seus autores limitaram-se a transcrever exactamente o que está escrito na única fonte bibliográfica que, tudo leva a crer, consultaram – Timeo hominem unius libri – que eu sei bem qual é pois tenho um exemplar desse livro, sobre o Torrão, em minha casa e quando o li pela primeira vez imediatamente me apercebi da situação e quando agora li o que estava escrito no site identifiquei imediatamente de onde tiraram a informação pois nem sequer se deram ao luxo de ser originais, de apresentar a história da igreja usando outras palavras. É pois dito que, e passo a citar «D. Margarida de Areda (a fundadora) era contra a ideia de esta Igreja fazer parte das Misericórdias e devido a isso as obras de construção da Igreja na altura pararam e só foram concluídas em 1636, quando finalmente a Igreja foi englobada nas Misericórdias por ordem do Cardeal D. Henrique». E é aqui que reside o busílis da questão. O texto é um pouco confuso e absurdo – embora já tenha lido o livro há algum tempo só há pouco menos de um ano é que tenho um blog e só agora é que surgiu a oportunidade de comentar tal facto pois só agora é que o tema pôde ser englobado. Por aquilo que me é dado a entender, a forma como eu, e certamente muito mais gente, interpreta o texto é a seguinte: as obras foram iniciadas, ainda no século XV, mas como se pretendia anexar a futura igreja às misericórdias, a fundadora, que não viu a coisa com bons olhos, mandou parar as obras reiniciando-se estas mais tarde, estando finalmente concluídas em 1636. Tal só veio a acontecer quando a igreja foi finalmente englobada nas misericórdias por ordem do Cardeal D. Henrique. Da maneira como está escrito, somos levados a entender que o processo se deu de forma linear e acelerado, na última etapa. Que já bem no século XVII é que o imbróglio se resolveu quando D. Henrique interveio e, de uma vez por todas, mandou englobar a igreja nas misericórdias o que implicou o rápido recomeço das obras e a sua rápida conclusão. Ora a história não é assim tão linear. Pelos vistos, o monumento começou a ser construído ainda no século XV e só terminou nos anos trinta do século XVII logo quando é dito que «... as obras de construção da Igreja na altura pararam...» é um pouco absurdo e impreciso. Mas o que é que se quer dizer com altura?! Em que altura foi? O processo não demorou meia dúzia de anos mas sim quase um século e meio ou mais precisamente, uns longos 141 anos daí que não se possa saber, olhando para o que está ali escrito, em que altura as obras pararam. Ainda no século XV ou só no século XVI? No início? Quando este já ia entradote? Na primeira metade? Na segunda metade? Não se sabe!
Embora não me esteja a apoiar em qualquer documento nem tenha consultado qualquer bibliografia o que leva a que o que vou escrever de seguida não passe de pura especulação, a explicação que para mim é a mais plausível parece ser esta:
A Igreja de Nossa Senhora da Albergaria começou a ser construída ainda no século XV, mais exactamente em 1495 no entanto alguém com o necessário poder político e/ou eclesiástico determinou que a futura igreja deveria ser englobada nas misericórdias. Contudo esta deliberação encontrou a viva oposição de D. Margarida que de imediato mandou parar as obras. Ao que tudo leva a crer, este contencioso deve ter tido início já no século XVI pois a primeira misericórdia a ser fundada no Reino (que foi a de Lisboa) só nasceu a 15 de Agosto de 1498. Seja como for, o impasse deve ter durado até à morte da fundadora e, ao que tudo indica, continuou nos anos seguintes. A situação só viria finalmente a ser desbloqueada com a intervenção directa do Cardeal D. Henrique que ordenou que a futura igreja deveria ser englobada de uma vez por todas nas misericórdias. Fosse porque motivo fosse, o que é certo é que infelizmente na referida obra sobre o Torrão não foi escrito a data em que esta decisão foi tomada daí que não saibamos se D. Henrique tomou esta decisão na qualidade de Arcebispo de Évora ou de Rei de Portugal. Contudo, aquilo que se deve sublinhar é que a decisão surge, de certeza, mais de meio século depois do início das obras pois D. Henrique torna-se Arcebispo de Évora em 1545 e Rei de Portugal em 1578. Contudo tal decisão nunca poderia ter sido tomada nem no século XVII nem nos últimos vinte anos do século XVI pois D. Henrique morre em 1580.
O que é certo é que a decisão não implicou que as obras fossem retomadas de imediato mas provavelmente, décadas depois da morte do Cardeal-Rei, já bem dentro do século XVII, sendo as obras concluídas, enfim, em 1636. Esta é que será certamente a versão mais correcta acerca da conturbada construção desta igreja.

Contudo, o que importa, resumindo e concluindo, é que o tão propalado património histórico, em boa parte, ou está arruinado ou nas mãos de privados ou não passa de um vestígio que ainda subsiste. Se alguém quiser visitar o Torrão única e exclusivamente para visitar o património histórico levado por certa publicidade enganosa será defraudado e perderá o seu tempo. Agora, quem vier visitar a nossa terra pelo seu, aí sim, vasto e rico património natural, a sua riqueza gastronómica, a sua pacatez e a sua arquitectura tipicamente alentejana e queira aproveitar para ainda assim visitar os vestígios históricos e os poucos monumentos que ainda conservam alguma da sua riqueza e esplendor verá o seu tempo por bem entregue.