Apesar da natureza brutal do regime de Saddam não posso deixar de lamentar os moldes e a forma como decorreu o julgamento e a consumação da sua, e de outras figuras igualmente sinistras do deposto regime, execução.
Para mim tais factos não representam um avanço mas uma paragem ou quiçá retrocesso civilizacional. A invasão do Iraque e deposição do seu regime ditatorial justificou-se com os argumentos da Liberdade, da Democracia e dos Direitos Humanos entre outros que se provou com o tempo serem pura invenção mas que agora não vêm ao caso. O que interssa sim são a Liberdade, a Democracia e os Direitos Humanos. Ora os lamentáveis acontecimentos que têm decorrido por terras iraquianas não abonam nada a favor de tais Valores. A começar pela humilhante exposição de Saddam pouco depois da sua captura. Não era isto que o ditador fazia aos seus opositores e rivais? Então onde está a diferença? Depois a farsa que foi o seu julgamento, um julgamento à partida viciado, ferido de credibilidade; um julgamento presidido por juízes em causa própria, juizes que certamente viram familiares seus flagelados às mãos do ditador agora réu. Mais uma vez a justiça dos vencedores sobre os vencidos (vae victis). Mandavam o bom senso e a superioridade moral daqueles que abominam ou que dizem abominar tais métodos que Saddam e seus colaboradores fossem entregues ao TPI, julgados com tranquilidade e com todas as garantias de defesa por juízes japoneses, suecos, portugueses, brasileiros, em suma, por juízes com as necessárias e suficientes distância dos acontecimentos em julgamento, imparcialidade e credibilidade e sob a alçada do direito internacional. E por fim os rocambolescos acontecimentos que vão desde a condenação à pena capital passando pelo impedimento dos réus ao recurso até à pressa e quase clandestinidade com que se executou Saddam. Todo o processo foi ele um autêntico aborto jurídico que apenas envergonha os verdadeiros democratas, aqueles que verdadeiramente defendem o estado de direito. Mais uma vez onde está a diferença entre os métodos do ditador para com os seus rivais e aqueles que agora o julgaram e executaram por tais métodos? Tudo métodos cuja semelhança com os métodos do ditador não serão certamente pura coincidência. Uma bala, uma corda ao pescoço, gás; o que varia é o método mas o resultado é o mesmo. E já agora quem é que terá fornecido o gás ao ditador para exterminar milhares de compatriotas, quem forneceu armamento, informações e apoiou Saddam na sangrenta guerra contra o Irão? Se calhar não era só Saddam e seus colaboradores que deviam estar no banco dos réus, se calhar reside aí a pressa, quase clandestinidade e a forma como o julgamento decorreu! E temos ainda que recoradar Abu Grahib, antes casa dos horrores de Saddam e agora transformada em... casa dos horrores ao serviço da Liberdade, da Democracia e dos Direitos Humanos (!!!!!). Apesar de tudo, praticamente todos os países europeus condenaram a execução. A única reacção de júbilo vinda do Ocidente só podia vir mesmo dos EUA - um país que tem um enorme, triste e horroroso historial de condenações à morte e que apadrinharam a execução do antigo ditador - através da boca de um homem que nunca enquanto governador de um estado comutou uma única pena de morte. Este homem - Bush - continua mesmo ainda a afirmar que no que toca ao Iraque os EUA estão no bom caminho - Apre, que estes ianques são burros!
Eu não tenho qualquer formção júridica mas penso que é ridiculo ainda continuarem a decorrer julgamentos relativos a actos praticados durante o regime saddamista com o ditador e colaboradores próximos já executados. É pura e simplesmente patético. Agora a investigação caberia aos historiadores e o julgamento à História pois juridicamente isso é, para mim, um contra-senso.
Do ponto de vista político não vejo como esta execução possa trazer algo positivo para os iraquianos cada vez mais divididos e envolvidos em violentos actos de ódio caminhando cada vez mais para uma guerra civil e com o Iraque à beira de se tornar uma nova Jugoslávia. Logo após a morte do ditador eclodiram um pouco por todo o Iraque várias deflagrações de carros armadilhados que provocaram mais umas centenas de mortos. Pode-se afirmar que esses atentados iriam sempre ocorrer de uma forma ou de outra e que esse facto foi apenas o pretexto ideal para mais uma carnificina. Pode ser mas do que os executores de tais actos menos precisam é que lhes sejam dados pretextos. E há ainda o facto mais importante e que espelha bem a insensatez política de tal acto. É que esta execução vai ter aproveitamento político por parte das forças mais extremistas; vai servir para glorificar Saddam; vai elevar o antigo ditador, não apenas um pouco por todo o Iraque mas também por todo o mundo islâmico, a herói não apenas nacional mas herói de todo o mundo árabe; um simbolo da resistência islâmica, um simbolo da luta contra a opressão(!!), vai criar um mito, vai criar um mártir. Afirmam alguns politólogos que a morte de Saddam tem um carácter puramente simbólico para as forças ocupantes na medida em que assim justificam uma rápida retirada de terras iraquianas pois o trabalho de deposição, condução de Saddam à Justiça, e posterior execução está feito. Pode ser! Mas se Saddam fosse julgado num país neutro, segundo as normas internacionais, sem a interferência das forças que o depuseram e se cumprisse pena de prisão e ficasse sob custódia, mais uma vez, dum país neutro também não haveria o perigo do regresso do ditador e não seriam dados mais pretextos aos extremistas. Saddam merceria a morte? Certamente mas a superioridade moral da sociedade ocidental, a superioridade moral dos Valores em que essa sociedade assenta é incompatível com a prática da pena de morte. Contudo a glorificação de um ditador sanguinário, a sua elevação a herói e a mártir... isso Saddam definitivamente não merecia!