VENCE O FUTEBOL
Situada entre três capitais de distrito - Évora, Beja e Setúbal - pertenceu a linda terra de Bernardim Ribeiro em tempos ao distrito de Lisboa, passando, no entanto, a partir de 1927 para o de Setúbal.
Terra
genuínamente alentejana, é atravessada pela estrada internacional que
liga Lisboa a Ficalho e a Vila Real de Santo António, que o mesmo é
dizer: o progresso passa por ela a 120 quilómetros horários sem se deter
uns instantes, salvo quando nessas máquinas chicoteadas por um pequeno pedal
falta o combustível que lhes aumenta a velocidade. Assim esquecida pelo
progresso, não obstante o periodo de grande actividade que conheceu
quando da construção da barragem «Trigo de Morais» (Vale de Gaio) no rio
Xarrama, que é vizinho dessa localidade, os seus habitantes deslocam-se
quase diáriamente a Lisboa (pelo menos aqueles que o podem fazer) na
ânsia, compreensível, de uma civilização técnica e cultural que lhes tem
sido negada. E o que procura o homem do Torrão em Lisboa? Apenas e
quase exclusivamente o Teatro, o bom teatro que eles praticam com a
devoção de um amadorismo que dura há mais de cinquenta anos, numa
herança de pais para filhos e em tradição arreigada na gente do povo,
que o bom timoneiro, que foi Vicente Rodrigues, conduziu a bom porto. E
hoje, as récitas de amadores do Torrão constituem bilhete de êxito em
todas as terras de província, mormente no Alentejo, onde se desolcam. É
aquela gente, rapazes e raparigas, que trabalha nas ceifas, na cortiça,
nos arrozais, quem à noite veste os ouropéis de cena e se transfigura -
alguns em verdadeiros artistas consumados. Ainda há pouco tempo, Moura,
terra por onde tem passado das melhores vedetas da cena portuguea,
aplaudiu sem reservas este agrupamento teatral de amadores.
Satisfeita
uma velha aspiração que foi a inauguração da luz eléctrica, muito ainda
está por realizar. Empreendimentos levados a efeito noutras localidades
de menor importância e que em Torrão foram votados a um ostracismo
incompreensível. Assim: a construção de um mercado coberto, os esgotos,
arranjos em algumas ruas, e... mais um ponteiro no relógio da torre, um
relógio que marca o tempo de hora a hora para que os seus habitantes não
possam dizer que contam os minutos esperando a realizaçãos dos
melhoramentos de que mais carecem.
Torrão,
cuja economia depende muito dos bons anos de trigo, cortiça e arroz,
precisa conhecer uma fase de empreendimentos que a despertem do hibernar
que empobrece o seu comércio e a sua indústria, e que os seus
habitantes lamentam com justificada razão.
E para quando o monumento a Bernardim Ribeiro?
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